O desempenho acadêmico insuficiente de um aluno nem sempre está conectado com a falta de comprometimento. Há um déficit na educação básica que acaba impactando a aprendizagem na educação superior. A ONG Ação Educativa e o Instituto Social do IBOPE, apresentaram conjuntamente em 2016 o Relatório INAF (Lima, Ribeiro & Catelli Jr., 2016) sobre o letramento no mundo do trabalho.

O INAF (Indicador de Alfabetismo Funcional) divide a população em cinco grupos conforme uma escala de proficiência no letramento, a saber:

  1. Grupo Analfabeto: Pessoas que não conseguem realizar tarefas simples que envolvem a leitura de palavras e frases;
  2. Grupo Rudimentar: Pessoas que localizam informações explícitas, expressas de forma literal, em textos muito simples que exploram situações cotidianas. Resolvem problemas simples do cotidiano envolvendo operações matemáticas elementares (com ou sem uso da calculadora);
  3. Grupo Elementar: “Seleciona unidades de informação, observando certas condições, em textos diversos de extensão média realizando pequenas inferências. Resolve problemas envolvendo operações básicas com números da ordem do milhar, que exigem certo grau de planejamento e controle. Compara ou relaciona informações numéricas ou textuais expressas em gráficos ou tabelas simples, envolvendo situações de contexto cotidiano doméstico ou social”;
  4. Grupo Intermediário: “Localiza informação expressa de forma literal em textos diversos (jornalístico e/ou científico) realizando pequenas inferências. Resolve problemas envolvendo operações matemáticas mais complexas da ordem dos milhões, que exigem critérios de seleção de informações, elaboração e controle em situações diversas. Interpreta e elabora síntese de textos diversos, relacionando regras com casos particulares a partir do reconhecimento de evidências e argumentos e confrontando a moral da história com sua própria opinião ou senso comum”;
  5. Grupo Proficiência: “Elabora textos de maior complexidade com base em elementos de um contexto dado e opina sobre o posicionamento ou estilo do autor do texto. Interpreta tabelas e gráficos envolvendo mais de duas variáveis, compreendendo elementos que caracterizam certos modos de representação de informação quantitativa, reconhecendo efeitos de sentido. Resolve situações-problema relativos a tarefas de contextos diversos, que envolvem diversas etapas de planejamento, controle e elaboração, que exigem retomada de resultados parciais e o uso de inferências”.

Considerados os cinco grupos, o Relatório INAF concluiu que “a grande maioria de quem chegou ou concluiu a educação superior permanece nos grupos Elementar (32%) e Intermediário (42%), enquanto apenas 22% situam-se na condição de Proficiente da escala considerada” (Lima, Ribeiro & Catelli Jr., 2016). Isso é reflexo do que Ramal (2017) denomina “falsa educação” ou fake learning, ou seja, a passagem dos alunos pela educação básica sem aprender os conteúdos mínimos necessários.

De acordo com Fritsch, Rocha & Vitelli (2015), a evasão escolar “é caracterizada por ser um processo de exclusão determinado por fatores e variáveis internas e externas às instituições de ensino”. Entre esses fatores, destaca-se justamente o desempenho acadêmico. Segundo os autores, “a média de desempenho dos estudantes nas atividades acadêmicas revela que, da mesma forma que a média do ingressante, quanto mais baixa a média do aluno, maior a propensão de ele se evadir da Universidade” (2015).

O desempenho acadêmico, dentre os fatores e as variáveis que determinam a evasão, é um dos que podem ser gerenciados pelas IES. E esse gerenciamento é muito mais relevante para as IES privadas que, por sofrerem muito com a evasão, não têm outra opção senão adotar medidas para recuperar os alunos ingressantes que estejam nos grupos “elementar” ou “intermediário” de letramento, para permitir que tenham um desempenho acadêmico satisfatório e não entrem no “processo de exclusão” que os levaria a abandonar o curso.

Considerando, pois, a forte correlação entre o desempenho do estudante – seja no vestibular seja no processo avaliativo do curso – e a evasão na educação superior, um diagnóstico preciso dos ingressantes, aliado a uma estratégia de nivelamento eficaz podem ser decisivos para IES privadas.

Nesse sentido, procuramos apresentar aqui seis possíveis ações para maximizar o desempenho dos alunos, propostas que devem ser pensadas coletivamente no âmbito de cada IES, conforme as características dos alunos que recebem e de acordo com as características da região que atendem:

1. Diagnóstico detalhado dos ingressantes

 

Se, como vimos até aqui, a baixa média do estudante ingressante está fortemente relacionada com o seu baixo desempenho no curso e com a maior chance de evasão (Fritsch, Rocha & Vitelli,2015), um diagnóstico das dificuldades desses discentes poderia ser obtido a partir do estudo de suas performances no ENEM ou no vestibular institucional. Com um diagnóstico assertivo, seria possível classificar os ingressantes em grupos, conforme a escala de proficiência no letramento. Nesse sentido a tecnologia seria uma grande aliada das IES na obtenção, no tratamento e na análise dos dados mediante uma parametrização a ser definida pelos próprios professores da IES.

O diagnóstico pode ser detalhado, feito com base nas necessidades de cada curso. Um estudante que ingressa no curso de Ciências Contábeis, por exemplo, precisará de maior proficiência na área de matemática do que um estudante de Direito que, por sua vez, deverá ter maior domínio em língua portuguesa e interpretação de textos.

2. Programa de nivelamento

 

Com o desmascaramento do fake learning (Ramal (2017), pelos números do Relatório INAF (Lima, Ribeiro & Catelli Jr., 2016), as IES só podem adotar dois caminhos para evitar a evasão: (i) ou retêm os alunos prosseguindo com o fake learning; ou (ii) assumem a responsabilidade de recuperar esses alunos, desenvolvendo as competências, as habilidades e retomando os conteúdos que eles deveriam ter desenvolvido e aprendido na educação básica (Ramal (2017).

Considerando que dar sequência ao fake learning pode ser uma escolha prejudicial à própria IES, restaria a opção de recuperar os alunos. Nesse sentido, surgem os denominados “programas de nivelamento” como estratégia de combate à evasão.

Um planejamento adequado de um programa de nivelamento deve ser feito a partir do diagnóstico proposto no item acima. Ou seja, o PPC de cada curso já deve prever meios para a recuperação de conteúdos elementares de acordo com o perfil dos egressos que deverá formar.

Caso não haja essa previsão no PPC do curso, o programa de nivelamento pode ocorrer em cursos de extensão, como atividade complementar ou até pelo próprios professores em sala de aula. Porém, em qualquer dos casos, o esforço pode ter um efeito negativo para os alunos com nível de proficiência adequado.

3. Inovação nas metodologias de aprendizagem

 

Um dos maiores obstáculos que um professor enfrenta durante as aulas é engajar os alunos. Isso pode ser um desafio quase intransponível por conta dos déficits na educação básica. Com um grupo heterogêneo de estudantes nas mãos, os professores que seguirem com a metodologia tradicional de aulas expositivas terão muitas dificuldades em sua missão.

Há diversas possibilidades de inovações metodológicas. Porém, em todas elas o que se visa é fazer com que os alunos tenham postura ativa, participando ativamente das aulas. Desse modo, o professor passa a ter um papel menos central e mais facilitador.

Um exemplo disso ocorreu na UNB em Brasília/DF, onde o professor Ricardo Fragelli criou uma competição que incentivou seus alunos de Cálculo 1 — disciplina com alto índice de reprovação — a disputarem pelas melhores notas. Isso impactou a aprendizagem até mesmo em outras matérias.

Porém, apesar de existirem exemplos de extraordinário sucesso, há também exemplos de absoluto fracasso. Algumas dificuldades comumente encontradas são:

  1. a ruptura com o modelo tradicional;
  2. as limitações tecnológicas, culturais e sociais;
  3. as naturais resistências causadas pela mudança da cultura de aprendizagem no âmbito de algumas IES.

Considerando isso, as inovações metodológicas podem ser mais suaves. Algumas propostas simples podem ser testadas pelo corpo docente: ampliar os momentos de debates, criar seminários com temas e regras bem definidas, exigir (mediante atribuição de nota) que os alunos estudem por meio das TICs (ver item abaixo) e dos livros digitais fora do ambiente escolar etc.

4. Uso das Tecnologias de Informação e Comunicação (TICs)

 

O efetivo uso das TICs, mais que uma exigência do Instrumento de Avaliação de Cursos de Graduação (IACG), gera resultados positivos no ENADE. Em artigo em que apresenta uma análise dos microdados do ENADE disponibilizados pelo INEP em 2015, Luciana Maia (2017) demostra que os estudantes com melhores resultados no exame reconhecem o efetivo uso das TIC’s e da biblioteca digital ao longo do curso, e conclui que “investir nestas ferramentas é essencial para que as IES se mantenham em patamares de destaque” (Maia, 2017).

Além das exigências normativas e da comprovação numérica, sob o viés pedagógico é possível afirmar que as TICs ampliam a autonomia discente no processo de aprendizagem, otimizando o tempo do estudante permitindo que ele faça exercícios e revise o conteúdo até mesmo em ambientes fora da IES.

5. Utilização de questões no padrão ENADE

 

Outra ação que pode ser realizada nos cursos com grandes chances de sucesso, é a de usar questões (itens) no padrão ENADE nas avaliações aplicadas pelos professores das diversas disciplinas. A principal dificuldade para isso é capacitar o corpo docente para elaborar questões nesse padrão.

Algumas IES incluem as denominadas “provas integradoras” em seus processos avaliativos, mas nem sempre as questões dessas provas atendem ao tal “padrão” ENADE. O referido padrão para os itens está estabelecido no Guia BNI, o guia de elaboração e revisão de itens para o ENADE.

O Guia BNI deixa claro que as questões do ENADE são criadas com base nas Diretrizes Curriculares Nacionais (DCN) de cada curso. Isso significa que são usadas para avaliar se os estudantes têm as competências e as habilidades necessárias para o exercício da profissão e se apresentam o perfil desejado para os egressos do curso. Dessa maneira, as questões apenas usam os conteúdos do curso como meios para avaliar as competências,as habilidades e o perfil do egresso.

Na medida em que os professores lecionem com a necessária clareza sobre o perfil exigido para o egresso, as competências e as habilidades que seus alunos precisarão desenvolver, e elaborem as suas avaliações pensando nisso, haverá uma maior tendência de atendimento às exigências das DCN e melhor desempenho no ENADE.

6. Acompanhamento do desempenho dos alunos

 

Acompanhar a trajetória dos estudantes em cada disciplina do curso é uma ótima maneira de identificar suas necessidades e melhorar o desempenho deles. Para realizar esse acompanhamento de maneira prática é necessária uma cuidadosa gestão da aprendizagem e, novamente, a tecnologia aparece aqui como grande aliada. Isso porque ela permite a compilação e a análise dos dados estatísticos no âmbito da IES, o que inclui o desempenho dos seus alunos ao longo do semestre.

Os dados precisam ser analisados de forma cuidadosa e com parâmetros bem definidos. O acompanhamento periódico, individual e coletivo, do desempenho dos estudantes favorecerá um mapeamento das maiores dificuldades e das competências e habilidades menos trabalhadas ao longo do curso.

Vale pensar constantemente em estratégias para melhorar o desempenho dos alunos da sua instituição de ensino! Há muitas outras ações possíveis!

REFERÊNCIAS

CANAN, Sílvia Regina; ELOY, Vanessa Taís. Políticas de avaliação em larga escala: o ENADE interfere na gestão dos cursos? Práxis Educativa. Ponta Grossa, p. 621-640, v. 11, n. 3, set./dez. 2016. Disponível em: <www.revistas2.uepg.br/index.php/praxiseducativa/article/view/8996/5250> acesso em 01 out. 2017.

‘FAKE learning’: a falsa educação no Brasil vai fazer vítimas no mercado de trabalho. Realização de Andréa Cecília Ramal. Rio de Janeiro: G1 Educação, 2017. (3 min.), son., color. Disponível em: <http://g1.globo.com/educacao/blog/andrea-ramal/post/fake-learning-falsa-educacao-no-brasil-vai-fazer-vitimas-no-mercado-de-trabalho.html> acesso em 26 out. 2017.

FRITSCH, Rosângela; ROCHA, Cleonice Silveira; VITELLI, Ricardo Ferreira. A evasão nos cursos de graduação em uma instituição de ensino superior privada. Revista Educação em Questão. UFRN. Natal, v. 52, n. 38, p. 81-108, maio/ago. 2015. Disponível em: <https://periodicos.ufrn.br/educacaoemquestao/article/download/7963/5724> acesso em 25 out. 2017.

LIMA, Ana; RIBEIRO, Vera Masagão; CATELLI JR., Roberto. (Orgs). Indicador de Alfabetismo Funcional – INAF: Estudo especial sobre alfabetismo e mundo do trabalho. São Paulo: Ação Educativa & Ação Social do IBOPE, 2016. Disponível em: <https://drive.google.com/file/d/0B5WoZxXFQTCRRWFyakMxOTNyb1k/view> acesso em 25 out. 2017.

MAIA, Luciana. Quem são os estudantes com melhor e pior desempenho no ENADE? Portal Resultado ENADE. São Paulo: Saraiva Uni, 2017. Disponível em: <http://www.resultadoenade.com/quem-sao-os-estudantes-com-pior-e-melhor-desempenho-no-enade/> acesso em 25 out. 2017.

PROFESSOR desenvolve método que melhora desempenho dos alunos em Cálculo 1. Correio Braziliense. Brasília, 10 dez. 2015. Eu Estudante, p. 01-01. Disponível em: <http://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/eu-estudante/ensino_ensinosuperior/2015/12/10/ensino_ensinosuperior_interna,510086/professor-desenvolve-metodo-que-melhora-desempenho-dos-alunos-em-calcu.shtml> acesso em 26 out. 2017.