Por que os alunos precisam de atividades práticas?

 

É comum ouvirmos dos alunos que uma das maiores dificuldades enfrentadas por eles ao ingressar no ensino superior é a falta de tempo e dificuldade de planejamento dos estudos.

Mas por que isso acontece?

Durante o ensino superior, aconselha-se que os alunos passem por um estágio, de forma a ter contato inicial com o ambiente profissional. A carga máxima semanal de trabalho, neste caso, não deve ultrapassar 30 horas. Entretanto, muitas vezes o aluno trabalha como funcionário efetivo, e, portanto, mais horas na semana. Isso ocorre se o aluno busca o curso após já ter ingressado no mercado de trabalho ou se precisa de renda para pagar os estudos ou ajudar a família.

Quando avaliamos alunos dos cursos de Administração, Direito e Ciências Contábeis, notamos que apenas 6% trabalha somente o período semanal previsto para estágios no Brasil. Metade dos alunos trabalha 40 horas por semana. Isso sugere que os alunos têm menos tempo disponível para estudar e por já estarem presentes no mercado de trabalho, podem julgar atividades práticas mais interessantes.

 Situação de trabalho do alunos

Impactos

 

 Um dos principais motivos de evasão no ensino superior é a indisponibilidade de tempo. Quando avaliamos a dedicação semanal dos alunos de Administração, Direito e Ciências Contábeis, podemos observar que a maioria dedica menos de 3 horas semanais aos estudos (57,2% dos alunos).

O trabalho é um dos fatores que reduz o tempo disponível para estudo e frequência nas aulas. Com menos tempo disponível, os alunos passam a ser mais exigentes em relação aos métodos de ensino, e mais seletivos aos conteúdos pelos quais se interessam.

Qual a relação da Instituição de Ensino, do aluno e da formação de seus pais?

 

O nível de escolaridade dos pais influencia o desempenho dos alunos indiretamente, através de crenças e comportamentos¹. Os anos de estudo dos pais são um fator socioeconômico de relevância quando se analisa desempenho acadêmico.

Observando os alunos dos cursos de Administração, Direito e Ciências Contábeis, notamos que 78% daqueles cujos pais possuem graduação e/ou pós-graduação disseram ter sido incentivados por eles na escolha do curso. Quando analisamos a amostra de alunos cujos pais não possuem ensino superior, esse número cai para 55%. Isso indica que os pais que já cursaram o ensino superior são um apoio relevante aos alunos.

 

Influência na decisão de entrada do aluno

No Brasil, a escolaridade de pais e mães de alunos do ensino superior é bastante similar. A maior diferença entre os grupos está na pós-graduação. Enquanto 8% das mães de alunos possui pós-graduação, somente 4% dos pais foram além da graduação.

Ainda assim, a maior parte dos pais possui apenas ensino fundamental ou médio (44% dos pais e 40% das mães). Estamos lidando com alunos que, em sua grande maioria, são os primeiros a obter formação superior em suas casas e terão menos suporte do que possuíam no ensino médio.

O que fazer para ajudar os alunos?

 

Dado que os alunos dedicam aos estudos menos tempo do que é normalmente esperado pelos professores, é essencial a oferta de atividades de aprendizagem que relacionem disciplinas às vivências do mercado profissional, além de metodologias que facilitem a organização dos estudos. O aluno deve sentir que, frequentando as aulas e realizando as atividades propostas, analisa situações que o auxiliam no seu dia a dia.

 

Oferecer disciplinas de EAD (ensino à distância) é também uma boa opção, pois aumenta a flexibilidade dos alunos e permite que o trabalho seja melhor conciliado com as atividades acadêmicas.

Além disso, o aluno que conclui o ensino médio está acostumado a encontrar suporte e inspiração em casa. Mas os dados indicam que a partir do momento que o aluno médio ingressa no ensino superior, perderá parte desse apoio familiar.

Cabe às instituições tentar minimizar esse problema, oferecendo suporte nos pilares potencialmente afetados: de conhecimento e direcionamento. A oferta de nivelamento das disciplinas que serão pré-requisito no curso e o diálogo sobre carreira, desafios e oportunidades são formas de manter o aluno amparado e minimizar a possibilidade de evasão do curso.

 

Referências:

 

  1. DAVIS-KEAN, Pamela E. The influence of parent education and family income on child achievement: the indirect role of parental expectations and the home environment. Journal of family psychology, v. 19, n. 2, p. 294, 2005.
  1. As análises deste artigo foram realizadas com dados de 342.405 alunos de Administração, Ciências Contábeis e Direito divulgados pelo INEP.

Veja também: Resultado do ENADE: por que sua instituição de ensino deve acompanhar?

Luciana Maia

É Doutoranda em Administração de Empresas na linha de pesquisa de Finanças, pela Fundação Getúlio Vargas (EAESP-FGV) e Mestre em Finanças pelo Centro Universitário FECAP (2014). Atualmente é pesquisadora do Centro de Estudos em Finanças da FGV, Consultora Acadêmica para Administração e Ciências Contábeis na Saraiva Educação e leciona na pós-graduação e MBA da FECAP. Antes de se dedicar integralmente à carreira acadêmica, atuou em multinacionais como a Avon e Unilever, nas áreas de Compras, Logísitica, Vendas e Planejamento de Demanda.