A combinação do aumento da taxa de aprendizagem dos alunos com o equilíbrio dos custos institucionais é objeto de grande inquietação para os gestores das IES. Por isso, a revisão da matriz curricular tornou-se imprescindível para impulsionar ganhos no aprendizado dos estudantes e manter a saúde financeira da universidade.

Com o aumento da concorrência, surgiu a necessidade de se buscar alternativas para garantir a sobrevivência no mercado, sem prejudicar a qualidade do ensino e, tampouco, elevar os custos.

A palavra de ordem é otimização. E isso só acontece por meio da reestruturação inteligente da matriz curricular de cada curso, adequando-a às exigências do mercado de trabalho, à atualização tecnológica e às novas metodologias de aprendizagem.

Planejamento de nova matriz curricular

Antes de qualquer ação, há de se descobrir os pontos fortes e fracos da IES. Partindo desse princípio, a instituição precisa realizar uma análise minuciosa sobre a adequação da conjuntura dos cursos em relação às Diretrizes Curriculares Nacionais e o sistema de avaliação da educação superior do MEC.

Essa investigação compreende a análise do regimento interno e do projeto político-pedagógico institucional, dos projetos pedagógicos de cada curso e do perfil dos reitores, diretores de centro, coordenadores de curso e professores.

O desempenho dos alunos no Enade e as informações fornecidas no Questionário do Estudante, que integra o exame, também dizem muito sobre a situação dos cursos e o posicionamento da IES em relação a outras de mesmo perfil.

Uma das formas de se cruzar os dados do Enade, por exemplo, é a utilização de ferramentas virtuais, como o Resultado Enade, desenvolvido pela Saraiva Educação. De maneira prática e gratuita, a IES consegue visualizar o desempenho de seus cursos, acompanhar os indicadores relacionados ao Enade e comparar-se com a concorrência. Com isso, se ganha tempo e o processo de tomada de decisão pode ser melhor direcionado.

De posse desses dados, são definidas estratégias de revisão das matrizes curriculares de cada curso que afinem os interesses da IES — atualização pedagógica, mercado, situação dos egressos, equilíbrio financeiro, melhores resultados no Enade, etc. — com a legislação. E isso, sem dúvida, deve acontecer visando ao aumento da taxa de aprendizagem.

Benchmarking: aprendendo com outras instituições

Estender o olhar para o que tem dado certo em outras universidades é uma atitude favorável. Realizar o chamado benchmarking permite que uma IES aprenda com as atividades desenvolvidas por outras instituições, possibilitando o surgimento de novas ideias que impulsionem resultados positivos.

benchmarking é um processo contínuo de comparação dos produtos, serviços e práticas empresariais entre os mais fortes concorrentes ou empresas reconhecidas como líderes, buscando a superioridade competitiva. Surgiu como uma necessidade de informações e desejo de aprender depressa, como corrigir um problema empresarial. Acabou ficando conhecido no Ocidente como uma nova abordagem para o planejamento estratégico (Albuquerque, 1999).

Trata-se de uma ferramenta gerencial de aprimoramento contínuo. No processo de otimização da matriz curricular, as IES precisam de referências de excelência entre os concorrentes, de maneira a realizar melhorias que possibilitem maior dinamismo institucional, implantação de novas tecnologias e processos que resultem em maior engajamento de alunos e professores.

Por meio da utilização do benchmarking, o intuito das organizações é obter um feedback de sua relação com o ambiente externo (Araujo, 2012).

Diminuição de custos e aumento da taxa de aprendizagem

Uma das estratégias utilizadas na atualização da matriz curricular é a descentralização da sala de aula, incentivando a aprendizagem ativa e o treinamento prático para a futura atuação profissional, sobretudo por meio do uso de ferramentas tecnológicas que possibilitem o ensino a distância.

O MEC permite que as universidades dediquem até 20% da carga horária para atividades acadêmicas não presenciais, como disciplinas EAD e outros 20% para atividades complementares e estágios. Se bem desenvolvida, essa dinâmica pode representar ganhos tanto no ensino quanto na desoneração dos cursos.

O incentivo ao EAD é tamanho, que o MEC atualizou em junho deste ano a regulamentação da educação a distância e ampliou a oferta de cursos, inclusive com a criação de polos EAD pelas IES já credenciadas para esse tipo de modalidade.

Ao possibilitar ao aluno ser agente na sua aprendizagem e a interação com os conteúdos por meio da prática, sobretudo com a utilização de plataformas online, a retenção do ensino tende a ser maior.

Ademais, a redução de até 40% da carga horária com atividades não presenciais e estágios ou atividades complementares reflete na diminuição dos custos operacionais, dando fôlego financeiro à IES.

A Universidade Ibirapuera (Unib), em São Paulo, incorporou paulatinamente a otimização da matriz curricular à vida da instituição, com disciplinas adaptadas à realidade de cada curso e equalizadas com as tendências atuais de cada área.

Uma das novidades foi o livre arbítrio dado aos alunos de assistirem aulas que não fazem parte do seu programa em outras unidades e essas contarem como atividades complementares. A Unib julga que uma ação como essa possibilita o enriquecimento da formação dos estudantes, além de ser um potencial para otimizar a universidade.

Outra estratégia é a integração das diversas carreiras por meio de disciplinas compartilhadas. Não é necessário que cada curso possua uma sala específica e vários professores para ministrar disciplinas comuns a um grupo de cursos.

Alunos de diferentes áreas podem assistir a determinadas aulas, como estatística, filosofia ou metodologia do trabalho científico, em uma sala compartilhada e com a infraestrutura necessária para que a qualidade do ensino se mantenha.

Além disso, algumas dessas disciplinas que tenham menor peso no Enade podem ser ministradas por meio de plataformas online.

Para tanto, a matriz curricular deve ser dinâmica e respeitar as diretrizes de cada área. O levantamento das disciplinas comuns deve priorizar a separação dos alunos em grupos de conhecimento, com as devidas adaptações para que seja atendido um espectro mais amplo de alunos.

Enfrentamento da resistência na IES

Essas reformulações da matriz curricular implicam grande mudança de cultura entre os stakeholders, já que novas metodologias de ensino e processos de avaliação deverão ser incorporados pela instituição, e o mecanismo de entrega dos conteúdos aos estudantes modifica-se substancialmente.

É comum haver certa resistência, principalmente por parte dos estudantes, sobretudo se esses vêm de um ensino médio pautado pelo tradicional modelo expositivo de conteúdo e avaliação por meio de provas classificatórias, com pouca utilização de recursos tecnológicos.

Ao se depararem com uma carga horária reduzida e corpo docente menor, mas com a mensalidade mantida da mesma forma, o aluno entende que a universidade está apenas interessada em cortar gastos, e não em oferecer um ensino mais dinâmico.

A inclusão da porcentagem de atividades não presenciais como carga horária não pode demonstrar uma medida muito mais financeira que pedagógica. Uma atitude irresponsável como essa mancha a imagem institucional, gera evasão de alunos e, muito pior, prejudica a reputação da universidade por um período inestimável.

O êxito da implementação de uma nova matriz curricular depende do alinhamento entre a filosofia institucional e os mecanismos de gestão financeira da IES, dentro de uma estratégia que minimize custos ao mesmo tempo que gere maior aprendizado e permita a incrementação do desenvolvimento tecnológico.

O alcance dos resultados positivos é fruto de um trabalho conjunto com todos os stakeholders, embasado sempre na transparência das ações. A fim de que a aceitação seja satisfatória, cada etapa do processo otimização da matriz curricular deve ser implantada de maneira que toda a comunidade universitária reconheça os benefícios de tais mudanças.

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