É comum realizarmos análises com base nos dados do Enade, mas costumamos fazer inferências observando o aluno médio do ensino superior.

 

Com base nos microdados disponibilizados pelo INEP em 2015, observamos que a distribuição da Nota Geral, que se assemelha bastante a uma normal, possui frequência concentrada um desvio padrão acima ou abaixo da média – intervalo que vai de 29,5 a 56,4 pontos.

Onde estão as oportunidades?

 

Nesse artigo se propõe uma abordagem diferente: vamos analisar os alunos que apresentaram desempenho distante da média do ensino superior, seja de forma positiva ou negativa. Assim podemos verificar quais são as características dos alunos cujo resultado da Nota Geral esteve dois desvios padrão acima ou abaixo da média geral. Confira:

 

 Alunos com melhor e pior desempenho no enade

 

Renda e Desempenho

 

Alunos que vem de famílias com melhor disponibilidade financeira possuem mais acesso à educação e cultura antes mesmo de ingressar no ensino superior. Isso faz com que eles tenham tendência a apresentar resultados mais satisfatórios na graduação. O gráfico abaixo separa os alunos que tiveram melhor e pior desempenho no Enade de acordo com as faixas de renda.

 

Nota-se que os alunos que apresentaram melhor desempenho se situam nas faixas superiores, com renda familiar ultrapassando R$4.344,00, enquanto os alunos com desempenho crítico possuem renda inferior, concentrando-se especialmente nas faixas de R$ 1.086,01 a R$ 2.172,00 e abaixo de R$ 1.086,00.

 

 Renda e Desempenho dos alunos no Enade

 

Tempo de estudos, leitura e desempenho

 

Tempo de estudo é realmente um fator importante no desempenho dos alunos?

Quando analisamos as melhores e piores notas gerais no Enade, os dados sugerem que sim.

 

Alunos com desempenho muito superior à média respondem que dedicam mais de 4 horas semanais aos estudos de forma muito mais frequente do que aqueles cujo resultado é inferior à média:

Tempo de Estudo e Desempenho Enade

Outra constatação importante que emerge dessa análise é que os alunos que apresentam melhor desempenho no Enade leem mais livros do que aqueles cuja nota se manteve dois desvios padrão abaixo da média nacional. 52% dos alunos com nota insatisfatória possuem o costume de ler dois livros ou menos no ano.

 Livros lidos e desempenho no Enade

Dificuldades encontradas

 

Todos os alunos (com notas dois desvios padrão acima ou abaixo da média) enxergam como maior dificuldade para solução da prova a abordagem diferente do conteúdo. Para os alunos com pior desempenho a falta de motivação aparece também como dificuldade relevante.

Dificuldades encontradas pelos alunos no Enade

Oferecer simulados com padrão Enade é uma boa alternativa para deixar os alunos familiarizados com as questões que irão responder, permitindo que o foco se dê essencialmente no conteúdo, e não na forma, durante a prova. Além dos alunos, é essencial que os professores tenham conhecimento do formato exigido na prova. Somente assim poderão incorporá-los em atividades cotidianas e na abordagem que utilizam em sala de aula.

E quanto à falta de motivação?

Devemos refletir inicialmente se ela decorre de baixa confiança, ou seja, se o aluno já sabe que possui poucas condições de responder às questões, ou se vê pouca importância do Enade para sua vida profissional e acadêmica. Se ficamos com a segunda opção, a melhor estratégia é demonstrar claramente os benefícios que uma boa avaliação do curso oferece.

Os resultados de Macleod et al. (2015) sugerem que a reputação das instituições de ensino é positivamente correlacionada com o crescimento dos salários dos estudantes. O autor conclui que a reputação da instituição providencia informações relevantes acerca da habilidade dos estudantes e o valor que podem adicionar às empresas. No Brasil, Veludo-de-Oliveira (2013) encontra que os jovens atribuem à reputação da instituição parte de seu sucesso na procura por vagas de estágio. Assim, ressaltar aos alunos a importância que eles possuem na manutenção e melhoria da avaliação do curso – e como este impacta na sinalização que oferecem ao mercado, pode deixá-los mais motivados a exercer melhor desempenho na prova do ENADE.

Tecnologias da informação e comunicação (TICs), Biblioteca Virtual e o desempenho dos alunos

 

Ao final do teste Enade os alunos recebem um questionário que os permite avaliar tanto a organização didático-pedagógica e infraestrutura da instituição quanto oportunidades de ampliação da formação acadêmica e profissional. Cada assertiva apresenta uma escala de 1 (discordância total) a 6 (concordância total).

Este questionário pode ser um valioso instrumento para comparar, a nível nacional, quais práticas de ensino se mostram mais efetivas em influenciar indiretamente o desempenho dos alunos.

Dois pontos questionados aos estudantes de ensino superior são:

  1. Os professores utilizaram tecnologias da informação e comunicação (TICs) como estratégia de ensino (projetor multimídia, laboratório de informática, ambiente virtual de aprendizagem).
  2. A instituição contou com biblioteca virtual ou conferiu acesso a obras disponíveis em acervos virtuais.

Nos gráficos abaixo comparamos quantos alunos responderam que concordam (escalas 5 e 6) que suas instituições de ensino utilizaram TICs e/ou biblioteca virtual dentre os dois grupos – de melhor e pior desempenho no Enade:

TICs, biblioteca virtual e desempenho dos alunos no Enade

Nota-se que os alunos cujo desempenho se situou dois desvios padrão acima da média no Enade respondem consistentemente que contaram com TICs (73%) e biblioteca virtual (61,25%) em suas instituições de ensino. Dentre os alunos cujo desempenho se situou dois desvios padrão abaixo da média, apenas 5,29% afirma ter tido acesso a TICs e 4,61% a bibliotecas virtuais.

Sabemos que essa análise está sujeita à endogeneidade, ou seja, podemos argumentar que as melhores instituições de ensino oferecem TICs e biblioteca virtual, e, naturalmente, encontraremos alunos com melhor desempenho nessas instituições. Mas deixando de lado preocupações com a causalidade desses fatores, a mensagem se faz clara: seja porque as melhores instituições de ensino possuem TICs e biblioteca virtual ou porque os alunos apresentam melhor desempenho quando têm contato com esses recursos, investir nestas ferramentas é essencial para que as IES se mantenham em patamares de destaque.

Veja também: Do ensino médio ao superior: porque apoiar o aluno nessa nova trajetória pode ajudar sua IES

Referências

 

 

  1. MACLEOD, W. Bentley et al. The big sort: College reputation and labor market outcomes. National Bureau of Economic Research, 2015.
  2. VELUDO-DE-OLIVEIRA, Tânia Modesto et al. Empregabilidade e seus antecedentes para conquista da vaga de estágio por universitários. Revista Brasileira de Orientação Profissional, v. 14, n. 1, p. 47-59, 2013.

 

Luciana Maia

É Doutoranda em Administração de Empresas na linha de pesquisa de Finanças, pela Fundação Getúlio Vargas (EAESP-FGV) e Mestre em Finanças pelo Centro Universitário FECAP (2014). Atualmente é pesquisadora do Centro de Estudos em Finanças da FGV, Consultora Acadêmica para Administração e Ciências Contábeis no grupo SOMOS Educação e leciona na pós-graduação e MBA da FECAP. Antes de se dedicar integralmente à carreira acadêmica, atuou em multinacionais como a Avon e Unilever, nas áreas de Compras, Logísitica, Vendas e Planejamento de Demanda.